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Por que não?

Sérgio Junqueira Arantes*



É simplesmente absurdo que uma cidade como São Paulo não tenha um centro de convenções à sua altura, capaz de recepcionar, por exemplo, uma convenção mundial do Rotary (10 mil pessoas). Acredite se quiser, mas Santos e Uberlândia estão mais bem equipadas para receber grandes convenções do que São Paulo. Durante quatro anos, o Expo Management teve de ser realizado na Argentina, muito embora seus promotores preferissem São Paulo. O HSM Group só pode realizá-lo em nosso país após a inauguração do Transamérica Expo Center, e, mesmo assim, improvisando duas tendas, uma verdadeira gambiarra de 9 mil m2. Exemplos como esses abundam, com graves prejuízos para a cidade e toda a sua infra-estrutura turística (hotéis, restaurantes, locadoras, cultura, lazer, diversão etc).

Também é inconcebível que a mais importante cidade da América Latina não tenha uma identidade corporativa, uma marca, um cartão postal que a caracterize, um símbolo da sua grandeza, um sinônimo do melhor que ela tem a oferecer. Algo que esteja afinado com o novo posicionamento da cidade e que seja adequado aos novos valores adquiridos (ênfase nos serviços, na cultura, nos negócios, na gastronomia, nos eventos), que possa ser bem utilizado em suas mensagens globais. Já se cogitou o Masp, já se especulou sobre o monumento aos Bandeirantes, já se imaginou muitas coisas, mas a verdade é que ainda continuamos sem uma cara, sem um rosto, sem uma persona.

Visando regenerar sua estrutura econômica, a cidade de Bilbao começou a colocar em prática um ousado e bem sucedido planejamento estratégico, que culminou com a inauguração, em 1997, do Museo Guggenheim Bilbao, sendo que os australianos construíram o magnífico Sidney Opera House, inaugurado pela rainha Elizabeth II em outubro de 1973. Ambos se transformaram em belíssimos cartões-postais de suas cidades, ao mesmo tempo em que “vendem” uma estratégica imagem de modernidade.

Será que, dentro das comemorações dos 450 anos da cidade, não teria cabido algo tão grandioso quanto foi a construção do Ibirapuera nos 400 anos? Será que não poderíamos aproveitar a ampla mexida que está sendo feita no Ibirapuera para reincorporar a área hoje ocupada pelo Detran, bem em frente à Bienal, que conta, inclusive, com uma passarela já construída?

Por que não agregar às duas vocações originais do Ibirapuera (área verde e equipamento cultural), a maior das vocações atuais da cidade: o turismo de eventos?

Por que não aproveitar este mote e lançar um concurso internacional para o projeto arquitetônico de um Centro de Convenções Sesc, Visa, Tim, Safra, Itaú, Votorantim ou outra marca parceira qualquer, que consiga enxergar a floresta além das árvores?

O projeto de reengenharia que visa modernizar e readequar o Ibirapuera prevê um item polêmico – as garagens subterrâneas, sob o Parque. Vários ecologistas temem pelas conseqüências que poderiam advir dessa profunda intervenção. Por que não fazê-las na área atualmente ocupada pelo Detran (um enorme quarteirão), que viria a ser ocupada pela arena de multiuso, pelo megacentro de eventos?

Importante salientar mais um beneficio desta proposta: a geração de empregos e renda, considerando que a Zona Sul da capital paulista abriga cerca de 20.000 apartamentos, atualmente com uma taxa de ocupação média de uns 35%. Eventos geram hospedagem e consumo na rica gastronomia paulistana, que produz empregos. Milhares de empregos, sem que tenhamos que construir um único novo hotel, restaurante ou barzinho. Basta melhorar o aproveitamento dos existentes.

Há quem diga que os investidores se precipitaram, superestimando a verdadeira demanda por leitos. Discordo. O que ocorreu, na verdade, foi a descontinuidade de um processo que, caso seguisse seu rumo natural, teria desembocado, inevitavelmente, na construção de um empreendimento deste porte já há algum tempo. Os investidores, acreditando na lógica do progresso, tinham esse cenário como certo, inarredável, indeclinável.

Mas ainda há tempo.

Para finalizar, vale citar um levantamento relatado no prefácio do livro 450 Razões Para Amar São Paulo. Despretensioso, sem ambição científica, mas, ainda assim, bastante revelador do que pensam os paulistanos. Os autores fizeram três perguntas: Por que você gosta de São Paulo?; O que São Paulo tem, que outras cidades não têm?; Qual lugar você recomenda em São Paulo? Em termos de cartão-postal, o resultado foi consagrador para o Parque Ibirapuera: 44 citações, contra 17 do Masp, além de outras menos votadas.

Como dizia Bernard Shaw: “Alguns homens vêem aquilo que existe e se perguntam ‘Por que?’. Outros vêem aquilo que não existe e se perguntam ‘Por que não?’”

Por que não?

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