O ano começa depois do Carnaval, e quando ele tarda a acontecer, o país padece
Por Sergio Junqueira Arantes*
Talvez o maior espetáculo da Terra, certamente o mais importante do Brasil, o Carnaval movimenta milhões de pessoas através do país, uns atrás dos grandes eventos realizados em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife etc, outros buscando momentos de tranqüilidade nas praias de Aracaju, ou num dos muitos hotéis que fazem do não-carnaval seu maior atrativo.
As imagens transmitidas para o mundo todo, sejam dos grandiosos desfiles dos Carnavais de São Paulo e do Rio de Janeiro, sejam os cordões com milhares de foliões percorrendo festivamente as ruas de Salvador e Recife, aguçam o desejo de conhecer e viver pessoalmente esta experiência única e trazem ao Brasil milhares de turistas.
Nascido das raízes culturais mais autênticas, o Carnaval brasileiro, em suas diversas manifestações, transformou-se no decorrer do tempo num dos maiores fenômenos turísticos mundiais, com grandes inferências econômicas, acrescidas nos últimos anos pela crescente ocupação de espaço pelo marketing promocional, que multiplica a repercussão do evento e sua importância econômica.
As festas crescem, os artistas despontam e os problemas se multiplicam. Evento sem data certa no calendário, o Carnaval ora ocorre no começo de fevereiro, ora em março, por vezes em meados de fevereiro, sempre acompanhando o período da Quaresma – tempo de resguardo preconizado pela Igreja Católica, que justificava no passado os dias de festas e destemperança que o antecediam. Assim, desde sempre, uma festa pagã, tolerada pela Igreja, sendo que hoje justifica-se o desprendimento do Carnaval do calendário religioso.
Sem data fixa, a organização do evento fica prejudicada, principalmente se considerarmos a crescente importância de seus aspectos promocionais, que exigem rígida programação. Mais do que isso, considerando a tradição da
economia nacional aguardar o Carnaval para deslanchar, quando o mesmo tarda, o país permanece em compasso de espera.
Se muitos pensavam que o turismo brasileiro seria beneficiado com uma eventual extensão da alta estação, o desastre observado em 2003, quando o Carnaval caiu em março, foi a pedra que fez esvair de vez mais esta vã ilusão. Enterrado entre janeiro e o carnaval, fevereiro transformou-se no maior "mico" da história do turismo brasileiro, com cidades nordestinas e do sul amargando taxas de ocupação inferiores a 20%.
Explica-se: o mercado turístico vive de turistas que viajam em busca do lazer, principalmente nos períodos de férias escolares (janeiro) ou de grandes feriados, sendo o Carnaval o maior deles, e turistas que viajam a negócios – trabalho e eventos.
Enforcado entre a alta temporada e o Carnaval, em fevereiro de 2003 o turismo de negócios não aconteceu (e o de lazer, menos ainda!) e os hotéis, restaurantes, enfim toda a economia que gira em torno da atividade, permaneceu as moscas.
Se isso não bastasse, todo o resto da economia nacional também foi prejudicado pelo compasso de espera em que empresas e cidadãos permaneceram. Afinal, já diz a antiga tradição, não custa repetir, o ano só começa depois do Carnaval.
Porém, se isso constitui um problema, sua solução é simples e sua execução só exige coragem e decisão política para romper os grilhões desta antiga e, hoje, injustificada tradição, fixando o Carnaval no segundo final de semana de fevereiro - de forma definitiva.
P.S. – E que não se diga que a divisão das férias escolares em dois períodos resolveria o problema. Se possível, é uma boa solução para incrementar o movimento turístico, desde que antecipada, transformando dezembro em uma nova alta temporada.
(*) Sergio Junqueira Arantes é editor da revista EVENTOS.
Editorial da revista EVENTOS n. 35