Ilogicidade
A falta de lógica constitui o maior absurdo do segmento educacional, não obstante apresenta-se abundantemente exemplificada no texto do Acordo e no Vocabulário Ortográfico.
* Já se viu que é ilógico propor regras e não eliminar ou reduzir ao máximo as exceções. O Acordo, além de não eliminá-las, estende-as ad infinitum com o emprego das reticências e, pior, chega ao cúmulo de justificar, por várias vezes, que se mantêm tais e quais exceções “por estarem consagradas pelo uso”. Ora, se a consagração pelo uso deve ser respeitada, nenhuma alteração ou acordo ortográficos poderiam existir e estaríamos hoje escrevendo leys e pharmacia, ou melhor, continuaríamos todos ainda falando latim.
* O Acordo prescreve que r e s antecedidos de vogal devem ser dobrados e não usam hífen (biorritmo, microssistema...). O Vocabulário Ortográfico, desrespeitando-o, registra com hífen para-raios, para-sol, guarda-raios, guarda-redes, guarda-rios, guarda-rodas, guarda-roupa, guarda-saias, guarda-selos, guarda-sexo, guarda-sol... O respeito ao Acordo exigiria o hífen ser substituído pelas consoantes dobradas.
* Como se explica a um estudante ou mesmo a qualquer pessoa que pé de chinelo não tem hífen e pé-de-meia tem?
* Por que em cor de café, cor de bonina, cor de burro quando foge não há hífen, mas o há em cor-de-rosa?
* Qual a lógica de eliminar o trema nas nossas palavras e usá-lo nas estrangeiras? Ou o trema tem ou não tem função. Se tem, não se pode suprimi-lo. Se não tem, não se pode deixar de usá-lo, sem antes lhe dar um substituto.
* Como se explica que água-de-colônia tem hífen e água de cheiro não?
* E giravolta sem hífen, mas gira-mundo, gira-pataca, gira-discos... com?
* Se o Acordo diz que onomatopeias com palavras repetidas devem ter hífen (reco-reco, blá-blá-blá...), por que o Vocabulário Ortográfico registra sem hífen panapaná e panapanã?
* Por que em madre-forma, madre-mestra e madre-caprina o hífen é obrigatório, mas não é usado em madrepérola?
* Como justificar que guarda-chuva tem hífen e mandachuva não, se ambos são compostos de verbo+substantivo e a extinção do hífen sequer alteraria a pronúncia, fazendo-o desnecessário?
* A palavra arco-íris tem quatro outras denominações arco de Deus, arco da chuva, arco da aliança e arco-da-velha. Por que entre as quatro sublinhadas, todas grafadas com preposição, só a última tem hífen?
* Por que há duas grafias corretas, pré-embrião ou preembrião, com ou sem hífen, mas uma só para seu derivado pré-embrionário, com hífen? Os derivados deveriam seguir a grafia dos primitivos.
* Inversamente ao anterior, por que só existe uma grafia, com hífen, para pré-esclerose, mas duas para seu adjetivo derivado, pré-esclerótico ou preesclerótico, com ou sem hífen? Os derivados deveriam seguir a grafia dos primitivos.
* Onde a lógica de uma só grafia para preeleger, sem hífen, mas duas em pré-eleito (ou preeleito), e pré-eleição (ou preeleição)...? Os derivados deveriam seguir a grafia dos primitivos.
* Por que manter duas grafias para uma mesma palavra se, a rigor, não há distinção de pronúncia, como em biebdomadário e bi-hebdomadário?
* É estranho ter de ensinar que as grafias de proto-herdeiro e coerdeiro têm tratamento diverso, uma com e outra sem hífen, quando ambas apresentam, antes do mesmo h (herdeiro), elementos de composição terminados com o mesmo o (proto, co). O lógico seria a adoção de uma só medida: ou bem proto-herdeiro e co-herdeiro, ou então protoerdeiro e coerdeiro.
* Por que futuro do pretérito se escreve sem hífen, mas mais-que-perfeito deve ser hifenado obrigatoriamente, se ambos nomeiam tempos verbais e ambos são compostos com elemento de ligação? O Acordo não elimina o hífen nos compostos com elemento de ligação?
* Por que se mantiveram as grafias mal-andança (infortúnio), mal-assombro (fantasma), malconceito (má fama), malcriação, se o mal está indevidamente usado como adjetivo. Deveria ser má-andança, mau-assombro, mau-conceito, má-criação.
* Por que duas grafias, ab-rupto ou abrupto, quando se deve ensinar que a melhor pronúncia é a que separa os dois elementos (o prefixo ab e o particípio ruptus, de romper, em latim)?
* Por que duas grafias corretas, adrenal ou ad-renal, com ou sem hífen, mas uma só, sem hífen, para adrenalina e adrenalite? Não deveriam os derivados seguir a grafia dos primitivos?
* Por que blêizer se escreve com z e gêiser com s, se a pronúncia para nós é a mesma e ambos são anglicismos aportuguesados?
* Por que estender com s, e extensão com x, se ambos derivam do latim com x (extendere, extensionem)? Em latim, toda a família desse radical escreve-se uniformemente com x; em Português, essa mesma família apresenta várias palavras com x e várias outras com s. Mas isso não é tudo. O pior é que há outros radicais de grafia deturpada e nem sabemos quantos.
* Pretensão, contensão, distensão, extensão, tensão... são cognatos, isto é, têm a mesma origem e todos se escrevem com s. Por que já se registra em dicionário (no caso o Houaiss) que contensão é o mesmo que contenção, oficializando uma grafia não justificada?
* Se as gramáticas preconizam que as palavras de origem árabe devem ser escritas com j (aljôfar, alforje, aljazar...), por que existem delas com g (algeroz, algema, álgebra...)?
* Por que topônimos compostos sem hífen (Mato Grosso, Rio Grande, Porto Alegre...) têm adjetivos derivados com hífen (mato-grossense, rio-grandense, porto-alegrense...)
Por quê... por quê... por quê... por quê?... – Seria muito, muito cansativo continuar...
Ernani Pimentel