Anacronismo do acordo ortográfico
ANACRONISMO DO ACORDO ORTOGRÁFICO
Ernani Pimentel*
Em 1975, as Academias Brasileira de Letras e de Ciências de Lisboa haviam elaborado um novo projeto de acordo ortográfico que não foi aprovado oficialmente, sobretudo por razões de ordem política vigentes em Portugal.
Em 1986, no encontro do Rio de Janeiro, pela primeira vez se encontraram não só Portugal e Brasil, mas também Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, as emergentes repúblicas africanas lusófonas. Chegou-se ali a um Acordo Ortográfico, que não se viabilizou pela reação polêmica que contra ele se levantou em Portugal.
Em dezembro de 1990, um novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa foi assinado em Lisboa pelos sete países já mencionados, aos quais posteriormente se somou a República Democrática do Timor-Leste. Esse novo acordo passou dormitando 18 anos nos escaninhos burocráticos, até que o desengavetou em 2008 a iniciativa do Presidente Lula, fazendo-o viger a partir deste ano de 2009. Portugal ainda não o pôs em vigor e há indícios de sobra para se pensar que não quer fazê-lo – existem fortes correntes no Congresso e um abaixo-assinado de 110 mil assinaturas trabalhando contra o Acordo. Tem-nos faltado tempo para pesquisar, porém fomos informados de que os outros países também ainda não o implementaram.
Essa conjuntura, longe de ser lamentada, parece providencial porque permite repensar alguns pontos, como, por exemplo, o anacronismo.
Em 1990, praticamente se reiterou o pensamento de 1975, porém o mundo evoluiu muito de lá para cá. É certo que o século XX representou uma evolução tecnológica mais acelerada que as de todos os séculos anteriores, mas também é verdade que em 1975 sequer havia a internet, um dos vários fatores que contribuíram para a transformação mais assombrosa de que se tem notícia na história comumente conhecida do planeta. Naquela época, a sociedade humana se locomovia, se analisava e se comunicava com recursos e visões profundamente primitivos, se comparados aos atuais. Estava-se na época da datilografia, nem se conhecia em nossos países o computador. Comparar os jovens de 1975 com os atuais faz qualquer um assustar, chegando a parecer impossível tal evolução. Os psicólogos e biólogos já constatam que boa parte das crianças de hoje estão nascendo com um par a mais de cromossomos ativados, o que significa estar a humanidade passando por verdadeira mutação genética que traz uma visão quântica da realidade, descomunalmente superior à antiga visão linear a que os adultos ainda estamos condicionados. O Japão e outros países vêm pesquisando e mostrando isso ao mundo. Ora, um acordo assinado em 1990 está compatível com aquela época, em que o professor falava para um estudante que a exceção comprovava a regra e este ria para o professor aquiescendo. Hoje, o estudante (e qualquer indivíduo) ri de quem aceita regras com exceções. Não faz sentido perder tempo. Ou o que se lhe ensina é lógico, prático ou não lhe desperta interesse. Não se quer saber de decorar. Quer-se entender. Contudo o Acordo, por ser de outra época, apresenta inúmeras regras, com várias listas de exceções, intermináveis, pois seguidas de reticências. Esse é um dos pontos pelos quais nasceu o Movimento Acordar Melhor, que defende a necessidade de se evoluir na organização das regras ortográficas.
Conheça o www.acordarmelhor.com.br, veja quantas autoridades o estão apoiando, leia os manifestos e faça parte dos que querem uma ortografia mais lógica, sem exceções e decoreba.
*Professor, autor, palestrante, articulista.